A primeira viagem de nós quatro - Texto de 21.06.2016

14:34

Atibaia, 21 de junho de 2016.
Ouvindo “Dia Especial”- Tiago Iorc.
Desde o começo do ano esperava pelo final de semana passado. Pensei com muito amor e carinho sobre como seria a comemoração do primeiro aniversário de casamento sendo pai e mãe de dois filhos, além dos quase 2 anos do Beni e também do primeiro trimestre completo do Miguel.
Eram muitos os motivos para celebrar a vida e a dádiva de ter uma família! Vibrei com uma intensidade infinita que todos nós estivéssemos com saúde e disposição para curtir o quanto possível este respiro da vida cotidiana, sempre tão insana.
São Bento do Sapucaí foi a cidade escolhida e a Pousada do Quilombo para a estadia.
Benício chegou querendo fazer amizade e jogando beijos para os tios e tias no restaurante da pousada; enquanto esperávamos pela pizza do jantar, a missão dele era convencer alguém a levá-lo até a sala da lareira ou ver o olhar de aprovação sobre a vontade incessante que ele tinha em sair correndo e subir e descer incansavelmente as escadas de lá. Quando viu que nem com toda simpatia conseguiria, iniciou a famosa birra. Tratamos de comer a pizza rapidinho porque tem horas que doutrinar é muito cansativo e nós não queríamos iniciar a viagem com ele chorando. Depois de comer pedaços da pizza de abobrinha, eis que surge “a visão”. Quando Benício vê uma criança, ele se transforma. Quer interagir de qualquer maneira! – e é muito gostoso de se ver, diga-se de passagem. A menininha, chamada Maria Vitória, ou Mavi, era uma fofura!! Ele quis chamar a atenção dela – como se chamando-a para brincar – e saiu correndo pelo corredor como um foguete; calculou mal o espaço, meteu a cara na cadeira, caiu, chorou por meio minuto, beijou a própria mão e passou na testa para se “auto sarar”, chamou a cadeira de boba, mostrou a língua e sorriu de novo para Mavi, que a esta altura já estava tranquila na mesa com os pais assistindo a “Pepa” em seu tablet. Mesmo chegando perto dela e olhando a telinha, o negócio dele era mesmo conseguir subir as escadas sozinho. Êita sapequice cansativa! É porque eu, como mãe, sempre imagino os perigos, enquanto ele só enxerga desafios a serem vencidos. Pois bem. Na hora de ir para o quarto, ele finalmente conseguiu o que queria! As palmas e o sorriso ele  ao chegar do outro lado da escada foi impagável – e passou rápido a empolgação, porque ele logo já enxergou outras coisas para brincar e se desafiar.
Estava uma noite fria, então resolvemos acender a lareira. Para ajudar o pai, Benício ficou de longe soprando para fazer fogo – sem que ninguém o tivesse ensinado – e depois apontava para a lareira e para nós e dizia “enti” e “dodói”, querendo dizer que ali era muito quente e poderia fazer dodói. É quase poético quando a criança reproduz aquilo que acabamos de ensinar, mas só consigo pensar nesta beleza agora, porque logo depois desta quase frase, ele já começou a ficar inquieto por ter que ficar preso no quarto e tratou de arrumar outras coisas para fazer: pegou o telefone e discou para a “titia”, falando “alô, alô”, mas não de modo quieto. Era mais legal falar “alô” tentando subir no criado mudo para alcançar o objetivo de se jogar na cama. “Benício, vai machucar, filho. Fica quietinho um pouquinho” – repeti no mínimo umas trezentas vezes – sem sucesso. Depois de muito pular na cama, reconhecer o território, finalmente adormeceu. Miguel conseguiu dormir em seguida, já que com o irmão tão animado ficou difícil fechar os olhos antes – rs.
No dia seguinte, acordamos e troca um, troca outro – estamos saindo – um faz cocô, troca de novo e uma hora e meia depois, conseguimos! – “Vamos correr, está terminando a hora do café!”
O dia estava maravilhoso, um céu de brigadeiro e o restaurante tinha uma vista espetacular para as montanhas – e também para o parquinho que levava a uma ponte bamba e bem alta. Sentamos. Peguei goiaba, manga, pão e bolo para o Beni e não durou 10 minutos para a birra começar, porque o desafio da vez era sair correndo para ir não ao parquinho, mas atravessar a ponte e de preferência sozinho. – “Benício, Benício, vamos comer, filho. Precisa comer pra ficar forte e saudável igual ao dinossauro que você adora!”
– “Ã, ã, ã, ali, ali, ali, mamãe, mamãe, ali, mamãe, ali, ã, ã, ã, buáááááááááááááááááááá”
Nessas horas eu me lembro da professora Leila me dizendo que o desafio não é meditar quando existe silêncio e o momento colabora, mas sim quando presenciamos especialmente um momento de caos.
Respiro fundo, conto até trezentos e para não ver mais olhares de reprovação, vou até o parque com ele. – “No parque, porque tenho medo de altura e na ponte você só vai com o papai.”
Vinte minutos depois, o Lu chegou e fui finalmente tomar meu café. Ufa! Silêncio e uma vista linda de presente! Pensei em como a natureza é linda!
Estando todos alimentados e depois de Beni ter ido na ponte e querer descer correndo a área de paralelepípedos só pra ficar mais emocionante, encontramos um lugar plano para brincar, correr, jogar bola, tomar sol, nos divertir. Mas ali perto tinha um barranco. Meu filho aventureiro queria era ficar ali, na beiradinha, só pra ver o que poderia acontecer. Deusinho nunca foi tão solicitado para me dar paciência quanto neste dia!
A brincadeira durou cerca de duas horas e começou a choradeira. Miguel com fome e Beni com sono. Fomos correndo para o quarto e algum tempo depois, os dois dormiram simultaneamente.
Olhei para o Lu e depois do “ufa!”, eu disse: “Finalmente! Vamos tomar nosso vinho?”
Quando solteiros, tudo era diferente: o local escolhido era sempre o que não aceitava crianças, afinal, são realmente desagradáveis os ataques de birra e sempre queríamos privacidade total. O dia era todo tomado para passeios na cidade, ofurôs e massagens e a noite, para a lareira, o foundue e um vinho pra terminar a noite meio breacos, com aquela sensação gostosa que o álcool na medida traz. Uma completa despreocupação e “cabeça leve”.
Maaaas… estávamos comemorando nosso aniversário de casamento e agora temos dois filhos, ou seja, muita coisa mudou – senão tudo! Então, a regra é dançar conforme a música. Nós, enfim, tivemos nossa hora e meia de sossego, risada, uma garrafa de vinho vazia e a dúvida: sobre o que falávamos quando não tínhamos filhos?
Decidimos tentar ser mais criativos no assunto na próxima vez.
Os meninos acordaram, almoçamos em paz, passeamos mais um pouco e o fim de tarde chegava. Com previsão de muito frio, ficamos quietinhos (quando digo quietinhos entende-se juntos em um só ambiente, porque meu filho curioso de quase 2 anos ainda não sabe o que essa palavra significa) e 20h30 os dois finalmente dormiram. Pedimos nosso jantar no quarto, o Lu foi fazer massagem e eu fiz o que eu mais amo fazer quando sobra tempo: DORMIR. A alegria de deitar às 21h00 é realmente impagável, porque sei que, ainda que eu tenha o sono interrompido, o saldo final será positivo e eu acordarei bem humorada e descansada.
Dia seguinte, antes da birra começar, nos dividimos para ficar com os meninos e tomar um café gostoso e contemplador. Beni quis andar de bicicleta com o pai enquanto eu fiquei passeando com Miguel. E assim, seguimos a rotina do dia. Horas depois, respeitando a hora do soninho vespertino dos dois, eu e o Lu conseguimos almoçar na varanda do quarto, curtindo o silêncio tão sagrado que traz tanta paz. Conversamos sobre aquela vista linda das montanhas, sobre o verde, sobre o quanto as pessoas daquela cidade deveriam viver por 200 anos, sobre a contemplação, sobre nossos sonhos e futuro. Lembramos como chegamos até ali, relembramos episódios engraçados e dramáticos da nossa relação e depois de longos abraços que muitas vezes são tão acolhedores e curadores, os meninos acordaram e era hora de ir embora.
Resumo da ópera: se você aceita que uma viagem com seus filhos vai te trazer momentos incríveis e outros estressantes, você cria a realidade correta em sua mente. Se os dois dormirem ao mesmo tempo, encare como um baita bônus. Uma coisa que eu e o Lu já estamos craques é olhar para estes momentos como verdadeiros presentes.
Não dá pra dizer que viajar com eles é relaxante e um convite ao descanso, mas dá pra imaginar o quanto estes momentos em família são importantes para a construção dos vínculos duradouros, para o treinamento de sentimentos como a paciência e também, para testemunhar a alegria ingênua de uma criança ao ver um tronco de árvore no chão e já imaginar um cavalinho.
Eles nos ensinam tantas coisas!
Cansaço e amor. As duas grandes palavras que resumem esta experiência.
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Em breve, teremos a nossa próxima viagem, se Deus quiser!
L.

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