Sobre escrever!

12:23


Encontrei um texto magnífico de Artur de Távola que fala sobre o ato de escrever. É incrível. Profundo! A escrita sempre esteve presente em minha vida, como forma de protesto, de declarações de amor, de amizade ou simplesmente tirando idéias acumuladas de minha mente, quando as palavras simplesmente vão saindo através de minhas mãos.
Consigo tirar de mim todos os bons sentimentos e também me livrar de muitas angústias, de coisas que não foram ditas em um momento de discussão ou uma briga, e que depois foi exteriorizado nas letrinhas. É a minha terapia. Bem melhor que qualquer psicólogo. Nada contra os psicólogos; eu mesma queria ser uma. Não segui carreira porque sabia que na época teria 1 ano inteiro de Anatomia, e não conseguiria aguentar o tranco de ver um corpo qualquer ali, pra ser friamente estudado. Não conseguiria. Preferi seguir a área administrativa mesmo!
E, além disso, continuo praticando fielmente o ato de escrever.
Me faz bem demais. Sempre me fez. Sempre me fará!
Super semana pra todos vocês!
ps: 10 dias para férias! Ulala!
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A verdadeira tarefa do escritor não é a de ser conhecido, viver do sucesso ou ser “best seller” mas a de encontrar (aos poucos) almas gêmeas capazes da sintonia. Não é necessário o êxito. Este, é manifestação epidérmica da contemporaneidade. É preciso, sim, ir fundo em si mesmo, encontrando meios e modos de grafar as verdades e observações próprias. Elas operarão o lento e gradual milagre da funda empatia. Com muitos ou poucos, é outra questão. Por isso é importante jamais frear o impulso criador, pouco importa o seu destino. O escritor precisa lutar com as forças que tiver para ludibriar os sistemas e as exigências da sobrevivência, da convivência, e encontrar tempo – ainda que escasso e roubado até de felicidades – para o exercício de seu trabalho, não importa horas ou minutos, em que tipo de papel, máquina ou computador...
Imperdoável em quem, dotado do dom da palavra, deixar escapar vivências, idéias, temas e não fixar a percepção luminosa, nos raros momentos em que esta ocorre. As inspirações raramente retornam da mesma maneira. Muitas vezes desaparecem no fluxo incessante e maravilhoso da mente. Cada percepção luminosa pertence a um envolvimento peculiar e a momentos mentais que não se repetem. Podem, até, retornar sobre outras formas, adiante. Podem, ademais, constituir obsessões do repertório de vivências internas de cada um. Porém, nunca retornam da mesma maneira. Para um escritor é imperdoável o desperdício, o deixar passá-las. O inconsciente recolhe, ávido, o que deixou emergir e não foi devidamente aproveitado.
Ao lado das inspirações, há, porém a necessidade de tempo para o trabalho braçal de desenvolver as idéias e aprimorar o texto. Aqui, é necessário labuta e persistência. Não importa, igualmente, se o escritor tenha ou não condições para fazê-lo dentro do tempo e do ritmo impostos pelos sistemas. Importa labutar, mergulhar no texto, poda-lo até o martírio. Escrever é ler. Ler o que se fez não como autor encantado e sim como leitor se possível indiferente ou como crítico.
Mesmo que a obra demore anos a ser construída com a paciência e dar forma ao bronze. E mesmo que não repercuta, o dever maior é realizá-la. O destino dos livros não depende do seu marketing: é misterioso. A meu ver, aliás, a verdadeira vida de um livro começa nos sebos. É quando ele é procurado por sincero interesse e não pela hipnose do sucesso mundano ou mercadológico.
Escrever é permanecer horas, dias e anos (enquanto os demais vivem, fazem, agem, aproveitam) na esperança do encontro, hoje, amanhã ou depois de morto, com algumas
poucas ou muitas almas irmãs com quem sintonizar, o que impossível foi com a maioria das pessoas, até mesmo com quem se conviveu. Escrever é também forma de meditar, não apenas no sentido de exercitar o pensamento, mas no de fazer o que os orientais chamam de meditação, vale dizer, a não interrupção do fluxo da mente para penetrar no próprio imo. Quem deseja escrever não deve pensar no sucesso e sim nas almas com quem se identificará, muitas ou poucas, não importa.
A mente cria tanto mais, quanto mais livre do pensamento dirigido, utilitário ou do esforço lógico-racional. Por isso é mais criativa no ócio ( ou no cio). Não na preguiça, porém, no ócio criativo, o que advém de um esforço desinteressado, de um fluir boêmio de pensamento ou idéias, lavra de ganga bruta dentro do qual pode estar o ouro da descoberta original. O pensar dirigido, tenso comprometido com o brilho, o êxito ou a erudição, é magnífico para teses de mestrado e obras técnicas, jamais para a atividade literária. Nesta, o fluir deve ser desinteressado, distraído, livre: o esforço da forma (posterior), estes, sim, precisa redobrar a atenção, o cuidado, o conhecimento, a paciência e a capacidade de trabalho. Aqui, o texto deve ser enxaguado à exaustão. Escrever é, por tanto, um prazenteiro martírio. Prazer porque criar é fonte de prazer. Prazer porque dar forma ao que punge a si ou aos demais é benefício público, porque dar clareza ao que se agita obscuro no limbo do entendimento é matéria de salvação. Martírio porque é estar sempre aquém e ver sempre além.
Finalmente, escrever bem é repetir o que já foi escrito, é servir-se do que já foi dito papa dizer pela primeira vez. É surpreender o lugar comum como a um inimigo e libertar a verdade que lá jazia, prisioneira da repetição. É ser novo e inaugural no que é velho e comum ao ser.
Lindo demais!!!!!
Beijos da Lillica.

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